ANGRA É NOSSA

Angra dos Reis Manifesto

ANGRAÉ NOSSA.

Vendem o paraíso.
Quem mora aqui
paga a conta.

Leia o manifesto

Território. Memória. Trabalho.

Para vender Angra, basta uma fotografia: mar azul, mata verde, uma ilha ao fundo. Nenhuma fila, nenhum trabalhador voltando para casa, nenhuma comunidade disputando o direito de permanecer.

Mas você conhece o que ficou fora da fotografia.

Conhece Angra quando o feriado acaba. Quando é preciso trabalhar, criar os filhos, pagar as contas. Quando o paraíso anunciado precisa funcionar como cidade.

É dessa Angra que estamos falando. Da nossa casa.

Antes de existir resort, marina ou condomínio de luxo, esse litoral já tinha vida. Tinha pesca, roça, caminhos, vizinhança. Famílias caiçaras, comunidades quilombolas e povos indígenas construíram aqui suas histórias. A terra sustentava a vida de quem estava nela.

Então chegaram os grandes projetos, a estrada, a promessa de progresso. Na expansão turística durante a ditadura, o litoral passou a ser disputado como oportunidade de negócio. Pesquisas sobre a Costa Verde documentam expulsões, intimidação e destruição de lavouras em conflitos que atingiram comunidades estabelecidas havia gerações. No Bracuí, moradores enfrentaram essas pressões durante a implantação do empreendimento turístico. A história está registrada em pesquisa da UFRRJ.

Imagine ver uma máquina avançar sobre o lugar de onde sua família tira o sustento. Ter de defender o caminho da escola, a água, a própria casa.

Em novembro de 1980, no Bracuí, 51 pessoas se reuniram para interromper uma obra que, segundo suas denúncias, prejudicava o abastecimento de água e a passagem das crianças. A comunidade precisou colocar o corpo no caminho das máquinas para ser ouvida.

Décadas depois, a propaganda chama de “exclusividade” aquilo que precisamos perguntar quem perdeu para que alguém pudesse comprar.

O muro separa muito mais do que terrenos. Separa quem pode descansar de quem precisa servir. Quem compra uma vista de quem precisa encontrar um lugar para morar. Quem chega para aproveitar Angra de quem precisa justificar sua presença nela.

Em um levantamento divulgado em 2017, 25 das 55 praias mapeadas tinham acesso privatizado e outras oito, controlado. Esse fechamento foi construído praia por praia, passagem por passagem. O levantamento foi publicado pela Agência Pública.

Uma cidade inteira pode perder pedaços de si enquanto cada empreendimento anuncia apenas mais um investimento.

É esse modelo que combatemos: resorts, condomínios, marinas e negócios de luxo que transformam território em privilégio e tratam a população como mão de obra disponível. Pesquisas sobre Angra relacionam a expansão turística à formação de enclaves, à segregação e à privatização de espaços públicos. Essas consequências foram analisadas na Geo UERJ.

E, quando alguém questiona, vem a resposta pronta: “Mas gera emprego.”

Emprego não é favor. É trabalho entregue em troca de salário.

Quem cozinha, limpa, constrói, pilota, conserva e atende produz a riqueza que esses empreendimentos vendem. Nenhuma piscina se mantém sozinha. Nenhum quarto se arruma sozinho. O descanso de alguém depende do esforço de outra pessoa.

Em entrevistas com antigas caseiras de Portogalo, uma trabalhadora contou que a presença dos proprietários significava trabalhar praticamente o dia inteiro. Outra relatou que faltava tempo até para comer e beber água. O mesmo estudo descreve grandes espaços residenciais fechados onde a maioria dos proprietários não mora permanentemente. Os relatos estão na revista Cidades.

A casa de férias precisa estar pronta. A vida de quem cuida dela também merece conforto, tempo e descanso.

Quanto vale um desenvolvimento que oferece ao trabalhador uma vaga, mas não garante condições dignas para viver na cidade que seu trabalho sustenta?

A conta também aparece fora dos muros. Em fevereiro de 2025, o próprio município registrou que o grande movimento do Carnaval costuma sobrecarregar a rede elétrica da Ilha Grande e provocar falta de energia. Está no Boletim Oficial de Angra.

A temporada termina. O morador continua aqui.

Continua precisando de luz, água limpa, esgoto tratado, transporte e moradia. Serviços que devem funcionar o ano inteiro, com infraestrutura à altura de quem vive aqui e de quem chega. A prefeitura precisa responder à população com a mesma disposição com que promove Angra como destino.

Receber visitantes pode fortalecer o comércio local e sustentar famílias. Para isso, o turismo precisa respeitar o território, distribuir seus benefícios e garantir condições dignas de trabalho. Comunidades devem participar das decisões sobre seus próprios lugares.

Nenhum empreendimento vale mais que o direito de uma comunidade existir.

Queremos caminhar até o mar. Queremos que nossos filhos possam construir uma vida aqui. Queremos que a riqueza produzida em Angra melhore Angra — os bairros, os serviços, os salários, a vida de quem mantém esta cidade de pé.

Nossa história não cabe na propaganda de um condomínio. Nossa presença não depende da autorização de uma portaria.

Angra tem povo. Tem memória. Tem gente que merece muito mais do que assistir, do lado de fora, à venda do lugar onde vive.

Da indignação à cobrança

E agora?

O que fazemos com essa revolta?

É revoltante ouvir que devemos agradecer por um emprego enquanto precisamos disputar o direito de viver na cidade que nosso trabalho sustenta. Arrumamos o quarto, construímos o cais, cuidamos do jardim. Depois atravessamos a portaria e voltamos a cobrar o básico.

Nossa vida não pode ser o custo escondido do paraíso dos outros.

Praia livre.

Queremos os acessos públicos identificados, sinalizados e desobstruídos. A Prefeitura precisa apresentar providências e prazos. O caminho até o mar não pode depender da boa vontade de uma portaria.

Dinheiro público com retorno público.

Queremos saber quem recebe benefícios fiscais, quanto custam e o que entregam à cidade. Nenhum novo benefício ao luxo sem contrapartida verificável para a população.

Bairros com infraestrutura o ano inteiro.

Saneamento, transporte, drenagem e segurança nas encostas precisam chegar a quem permanece depois da temporada. Queremos orçamento, cronograma e obra entregue.

Quem degrada precisa reparar.

Empreendimento nenhum pode transferir seus danos para a praia, o mangue, o pescador e o morador. Exigimos fiscalização e reparação pelos responsáveis.

Trabalho digno e direito de permanecer.

Quem mantém o turismo funcionando merece salário justo, descanso e respeito. Comunidades caiçaras, quilombolas e indígenas precisam ter seus territórios protegidos e participar das decisões que afetam suas vidas.

Como se organizar?

Comece pelo lugar onde você mora. Reúna vizinhos, trabalhadores e organizações da comunidade. Registre o problema, construa uma cobrança comum, procure os órgãos responsáveis e acompanhe a resposta.

Na audiência, na associação, no sindicato, na praça: leve a mesma pergunta.

Quem é responsável? Qual é o prazo? Quando a solução chega?

Compartilhe este manifesto. Conte as histórias que ficaram fora dos folders. Faça essa cobrança circular e permanecer.

Documentos e pesquisas

A história tem fontes.

Consultar as 5 fontes
  1. 2015 PDF

    Conflitos por terra e repressão no campo na Costa Verde — abre em outra aba

    Annagesse Feitosa e Iby Montenegro Silva · Pesquisa coordenada pela UFRRJ

    História dos conflitos fundiários e da resistência das comunidades. Capítulo sobre a Costa Verde, com o caso do Bracuí.

  2. 2017 Reportagem

    Em Angra, uma aula sobre as praias privatizadas — abre em outra aba

    Agência Pública

    Levantamento de 55 praias: 25 com acesso privatizado e oito com acesso controlado. O recorte é de 2017.

  3. 2020 Artigo

    Turismo, território e urbanização — abre em outra aba

    Marcos Paulo Ferreira de Góis · Geo UERJ

    Urbanização turística de Angra e da Costa Verde: enclaves, segregação e privatização dos espaços públicos.

  4. 2024 Artigo

    Do lado de dentro dos muros — abre em outra aba

    Eliane Melara e Lucas Ferreira Andrade · Revista Cidades

    Espaços residenciais fechados em Angra, com entrevistas de trabalhadoras de Portogalo.

  5. 2025 PDF · p. 29

    Boletim Oficial do Município — edição 2065 — abre em outra aba

    Prefeitura de Angra dos Reis · 11 de fevereiro de 2025

    Reunião sobre energia na Ilha Grande. O boletim relaciona o movimento do Carnaval à sobrecarga e às interrupções.

Angra dos Reis Território. Memória. Trabalho.

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